O QUE É ISTO, YOGA TERAPIA ?
É necessário iniciar essa conversa resgatando o significado de algumas palavras fundamentais para compreender o sentido do Yoga como Terapia. Terapia vem do Grego therapeia, “ato de curar, de restabelecer a saúde. Cura do latim curare, “ato de cuidar; vigiar” e saúde, do latim salus, “boa saúde, relacionado a salvus, “salvo, em segurança”. A base dessa palavra no Indo Europeu é sol, “inteiro”. Boa saúde então é a condição de uma pessoa estar “inteira”. Isso significava muitas vezes estar com todos as partes do corpo solidamente implantados em seus lugares e funcionalmente integrados. A expressão “ser inteiro” implica um indivíduo estar ciente, de posse de si mesmo em todas as suas dimensões; em todas as áreas que o constituem como humano. Portanto a amplitude do conceito de saúde é um reflexo da concepção que se tem do ser humano.
A visão do Yoga sobre a constituição humana vai determinar o alcance do termo Yoga Terapia. Sendo Terapia o estabelecimento da consciência de “ser inteiro” isso significa que não havendo o acesso à totalidade do ser que se é, existe a ausência de uma condição saudável, ou seja, existe algum nível de enfermidade. Sendo assim o desconhecimento de si mesmo é uma condição doentia; é já enfermidade e possivelmente a raiz de todas elas.
O Yoga concebe o humano como um ente que aparece no mundo desde uma fonte originaria e que ao aparecer não se descola de sua origem. Ao contrário, o originário constitui sempre a instância última do originado. Por tanto ao se explorar as possibilidades máximas do humano se abre a vivência da dimensão de onde ele vem. Ela é o núcleo mais profundo do humano. Ek Ong Kar Sat Nam Shri Wahe Guru “ tudo nasce do Um e o Um é a Identidade de tudo”.
Essa identidade originaria é o Ser de onde emerge o ente humano. É o Atma, Purusha, Shiva. O Infinito! A chamada “presença divina” em cada humano. O termo “divino” aqui significa causa de si mesmo. Nessa perspectiva o humano em última instância é divino. Portanto o Yoga como Terapia visa criar condições para que o humano desconstrua a noção de si mesmo baseada na dinâmica do originado, ou seja, no tempo, nas memórias, e assim possa ocorrer a vivência a-histórica, fora do tempo, a experiência de ser divino. Isto é saúde. A consciência de “ser inteiro”.
Muitas vezes a expressão Yoga Terapia é encarada como uma redução; uma diminuição da amplitude do que é o Yoga em sua origem tradicional. É visto como um uso menor e utilitário das práticas, desvinculado do seu propósito original. Essa visão um tanto pejorativa do termo Yoga Terapia tem suas razões de ser. Elas se baseiam em alguns equívocos que de fato ocorrem. Um deles é a visão pequena do que significa saúde e terapia. Nesses casos aparece um uso digamos assim “farmacêutico” das técnicas yogis, onde se aplicam exercícios em função de sintomas isolados: postura para o fígado, exercícios para eliminar a prisão de ventre, para a saúde pulmonar…etc.a lista é longa. Ou surge um uso fisioterápico das técnicas com ênfase em exercícios para correção postural, alongamento…etc. Nada disso é ruim em si mesmo, mas em nenhum desses casos se está considerando o ser como um todo e suas infinitas possibilidades. Utilizar as praticas yogis para tratar apenas os sintomas dos desequilíbrios é com certeza muito menos do que cabe ao Yoga realizar.
Outro aspecto a considerar é que nessa concepção reduzida quando se pretende abranger o aspecto mental, emocional, isso tende a ser feito de um modo simplista que cheira ao que há de pior na chamada “auto ajuda” e na religião. Surge uma abordagem que estimula o auto engano ao pretender mudanças psicológicas a partir do cultivo artificial e fantasioso de virtudes morais ou de pensamentos e atitudes supostamente positivas” sem que para isso tenha sido construída uma base de sustentação energética e emocional capaz de dar consistência às tais virtudes.
Uma concepção de Yoga Terapia com essas características seria de fato reducionista e quase caricata em relação ao que o Yoga é como tradição ancestral de iluminação de consciência. Por isso a sugestão é não se enganem quando se depararem com ofertas de cursos e atendimentos com esse nome. Tudo pode ser reduzido ao tamanho de quem o usa. É compreensível então que ao se ouvir a expressão Yoga Terapia possa haver mesmo e com razão, uma certa indisposição com esse termo e surgir a impressão de que se esta diante de algo utilitário e muito menor do que é o próprio sentido essencial da palavra Yoga.
No entanto, se compreendermos Terapia como procedimento para extinguir toda enfermidade e admitindo que a raiz das enfermidades é a ignorância sobre si mesmo e a noção de um eu separado, então vamos concordar que Yoga é a Terapia para esse planeta cujos habitantes padecem dessa enfermidade básica que é o engano sobre o que se é. Yoga é o estado de consciência além da ilusão de um eu baseado no tempo.
No modo de dizer clássico de Shri Patanjali no Yoga Sutra, Yoga é o nível de consciência que surge quando ocorre “a parada das ondas mentais”. “O ser então repousa em sua própria origem e não se confunde mais com as flutuações da mente.” Yoga é ausência de confusão sobre si mesmo. É sair de um sentido de identidade baseada nas “ondas mentais” e abrir o espaço do ser que é desde a sua própria origem. E isso significa uma frequência auto gerada e geradora.
Os inúmeros recursos desenvolvidos pelos sábios do Yoga no decorrer de milênios existem para dissolver os enganos sobre a própria identidade. Estabelecer como referência sobre si mesmo uma dimensão que está além do tempo e da mente. Isso lança o humano na plenitude de si mesmo a partir da qual pode viver em liberdade e sabedoria.
O Yoga como Terapia é um processo de vivência dos ensinamentos e práticas da Tradição Yogi orientados de modo particular para atender as necessidades e potencialidades específicas de cada indivíduo. O que se cuida nessa Terapia é eliminar a confusão mental e emocional geradora de enganos que mantém a ignorância sobre si mesmo; restringe o potencial de percepção e gera um mundo virtual subjetivo que não se relaciona de modo harmônico com os fenômenos da vida. A relação com a natureza, com os outros seres humanos e com os próprios processos mentais, emocionais e orgânicos é prejudicada pela ignorância e o engano sobre o que se é.
Toda enfermidade implica um certo grau de sofrimento. E o sofrimento, ele próprio, decorre de um certo grau de enfermidade. O que significa não estar plenamente saudável. Daí o sentido de terapia como modo de restabelecer a saúde. E saúde como ser inteiro, estar a salvo, completo.
A enfermidade básica humana foi diagnosticada por muitos sábios, entre eles Sidharta Gautama há 2.500 anos na Índia. Ele formulou assim: o sofrimento existe, tem uma causa, que é a ignorância de onde surge a noção de um eu substancial e separado. Essa causa pode ter fim. E descreve então o processo de extinção da ilusão sobre si mesmo. Processo esse que culmina na plena atenção e meditação, assim como é também na descrição de Patanjali no Yoga Sutra.
O Yoga como Terapia concorda com esse diagnóstico de Buda e seu foco, como já foi dito, é claramente a extinção da ilusão de um eu. O modo como o Yoga encaminha esse processo não é fornecendo respostas. É antes de tudo fazendo perguntas que revelam o engano do que se pensava a respeito. E é também propondo intervenções específicas sobre o campo energético, orgânico e psíquico, capazes de harmonizar essas áreas e ampliar a capacidade de percepção. Quando a qualidade do olhar muda, muda o que é visto.
O Yoga como Terapia enfrenta desse modo a enfermidade básica humana que é o desconhecimento de si, e muitas outras que tanto decorrem dela como a sustentam. A ignorância tem uma base de sustentação que precisa dissolvida. Essa base está distribuída no corpo físico, energético, emocional e mental.
Os desequilíbrios em qualquer uma dessas áreas ao serem desfeitos promovem condições favoráveis para a desconstrução da auto ilusão e o acesso ao estado de Ser Um que é Yoga.
CORPO FÍSICO
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